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“Recusando o malefício de um mundo saturado de imagens e onde a felicidade é um direito e a felicidade uma obrigação, Manuel Valente Alves prefere multiplicar as imagens fotográficas que trazem consigo a poética da síntese mínima de um haiku: indiscutíveis composições onde um detalhe do olhar e da cidade é a procura de um acontecer. O observador olha o visível que a câmara enquadrou como a vibração de um pedaço de vida, o fotógrafo isola uma passagem, um encontro de linhas e volumes, um lugar de conveniência ou a desolada e imponente solidão dos grandes edifícios ou de alguém mergulhado dentro de si ou da tecnologia amigável. Hoje, sabemos que não há perceção sem emoção, esse truque do corpo para sobrevivermos num meio hostil que sofisticados sistemas físicos e químicos facilitam criando simulações para os factos e trocando-os por aquilo que se espera. O nosso sentido visual ignora grande parte da realidade, mas cria um realismo interno que a câmara fotográfica parece confirmar, na sua complexa ação de presença e ausência. (…)
E, assim, este livro de imagens do Porto não é um roteiro da cidade, mas apenas daquilo que se oferece e se passa num olhar contemporâneo, um registo de uma beleza inesperada, uma estranheza ou uma identificação com o que se passa nesta cidade, nos seus lugares de conveniência, as eleições de cada grupo, de cada recanto de encontro consigo mesmo, a mescla diária de gregarismo e individualização.”

Maria doCarmo Serén, in “Introdução”  

 

NOTA BIOGRÁFICA

ManuelValente Alves (Abrantes, Portugal) vive e trabalha em Lisboa. É formado emMedicina pela Universidade de Lisboa. O seu trabalho como artista visual tem-se desenvolvido em torno do conceito de paisagem, problematizando as relações desta com o corpo, a memória e a política. Utiliza uma grande variedade de técnicas e suportes (pintura, desenho, fotografia, vídeo, filme e instalação) através dos quais cria séries, exposições e outros projetos, nomeadamente para edição em livro, DVD e na web.
Desde 1983, realizou cerca de três dezenas de exposições individuais e participou em mais quarenta exposições coletivas em importantes museus, galerias e outras instituições culturais, dentro e fora de Portugal. A sua obra visual encontra-se representada em numerosas coleções privadas, museus, bibliotecas e outras instituições culturais.
O seu interesse pelo pensamento e prática interdisciplinares tem-no levado a desenvolver, paralelamente à sua prática artística, trabalho de investigação e de curadoria nas áreas da história, da filosofia e da museologia, ligando arte, ciência, medicina e cultura visual. Neste âmbito, é autor, editor e coeditor de cerca de duas dezenas de livros, tem feito palestras, a convite de universidades, museus, sociedades científicas e outras instituições culturais, em Portugal e no estrangeiro, e organizado colóquios e conferências interdisciplinares. Foi comissário de mais de uma dezena de exposições institucionais.